Monday, October 06, 2008

verde, uma história sobre ressentimentos, fungos e bolores

Você nunca ouviu falar em maldição
nunca viu um milagre
nunca chorou sozinha num banheiro sujo
nem nunca quis ver a face de Deus."
(Cazuza: "Só as mães são felizes")


É incabível culpar as circunstâncias pelo acontecido. Mesmo que ele hesitasse em passar daquela porta branca, bem decorada, da casinha verde, não conseguiria mais dormir em paz, com o peso dos assuntos pendentes ocupando o pensamento todo, de uma só vez. Culpar as circunstâncias seria mais fácil, repito, porque na época sendo ele muito jovem, muito bobo e viajado de menos para controlar suas sensações arranjadas de infiel. E então ela tirou a retórica que precisava para expulsar e lavar a cara do marido com as mentiras: "Todos os homens não prestam". E pronto, não havia brechas primárias, secundárias de discussão. O cardápio era aquele e ninguém ousava ir na contramão do gosto da chef. Ele, meio sábio, juntou seus pertences e deixou o sobradinho verde para trás, e dentro dele, deixou a Monalisa de papel, a champanha nacional que costumava beber no copo de plástico, seu chapéu de pescador, e o mais importante de todos os itens pessoais do rapaz, deixou uma mulher que ele demorou tempo demais para encontrar. Uma pena.
Observando o isqueiro de paris, sentiu-se intrigado ao reparar que o fluido era transparente, pois como os isqueiros são todos opacos, nunca foi possível saber a exata coloração do líquido inflamável. Transparente, o recipiente translúcido, verde. A maldita cor da casa, do vestido preferido dela. Pensava nela e sentia um desespero, porque não devia pensar, está parado na porta que ele mesmo fechou há muitos anos atrás, e daí, não há razão para momento tão revelador, para cutucar antigas mazelas. Está apenas de pé, colado na porta, tentando prestar atenção no isqueiro, para não tocar a maldita campainha. Mas ele toca. E sente um arrepio que cruza o corpo inteiro, um frio intenso que estala nos ossos. O impulso gélido chega até a cabeça num ímpeto de ansiedade. A cabeça dói, pesa, o olho não fecha, nada se move. Tudo pára, pimba, como numa mágica paradinha de bateria de escola de samba. Apenas cinco segundos. Eternos. Os gestos pesam toneladas, o ar é denso e poluído. Ele percebe que está chegando o momento da tão esperada epifania...e não só qpenas uma, viu, vai ser uma explosão simultânea de toda elas. A porta abre-se, e uma criança loira sai à porta. Alou, ô de casa. Epifanias se revelando, uma a uma... A pequenina espera um instantinho, mas sem ser correspondida, entra para seu palácio verde-céu de novo.
Para surpresa, ele se encontra escondido atrás de um vaso de Pinheiro-do-Paraná. Tão covarde, não teve meios de suportar a enxurrada de epifanias, velhas e cheirando à pêra mofada. O gosto latente em sua boca, era de pêra mofada, quase esbagacenta. Mofo. "Devo estar doente". Entra no carro, e pensa nos dez minutos mais insanos que viveu. De longe observava a casa, enquanto visualizava direitinho todas as partes do corpo dela em cada janela, porta e varanda do palacete. E a imagem da casa fundiu-se com a da mulher no pensamento rouqueado e tonto do quarentão ensandecido. Ela vestida de verde, enorme, indo de encontro à ele, flutuando. Coitado. A face enverdeceu, estava mesmo doente, mas não era doença física do corpo, era doença do coração. Coração embolorado, já fora diagnosticado. Um mofo espesso que se formou nas linhas onde bate, bem mais forte o coração.

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